Parlamentar do PL alegou que memória de Raquel Cattani foi desonrada por petista; presidente da Assembleia, Max Russi, apelou para que deputado recue da decisão.
O deputado estadual Gilberto Cattani (PL) protocolou um pedido de remoção do nome de sua filha, Raquel Cattani, vítima de feminicídio, da sala da Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa (ALMT). A petição foi apresentada após uma declaração polêmica do também deputado Valdir Barranco (PT) que teria, na visão do bolsonarista, ofendido a imagem da jovem.
O atrito entre os parlamentares começou quando o petista criticou o Projeto de Lei nº 1.470/2024, proposto por Cattani, que autoriza o uso de emendas parlamentares para financiar a aquisição de munições e alvos em clubes de tiro no estado, tendo como público-alvo exclusivo mulheres que já possuam a posse ou o porte legal de arma de fogo.
O armamento e o treinamento femininos são a proposta de Cattani para diminuir os altos índices de feminicídio em Mato Grosso, que figura há alguns anos como o estado com o maior número de crimes motivados por gênero em termos proporcionais do país.
Barranco criticou duramente a proposta e contradisse o argumento de que as mulheres vítimas de violência doméstica estariam mais seguras armadas. Ele relacionou a proposta diretamente ao caso de Raquel, que foi assassinada mesmo fazendo parte de uma família armamentista.
Ele ainda relembrou um retrato da família que gerou polêmica anos atrás, quando
Cattani posou com vários membros, inclusive crianças, portando armas de fogo. De acordo com a fala de Barranco, ele acredita que uma das mulheres da fotografia seja Raquel.
“Absurdo. Se isso funcionasse, a filha do Cattani não teria sido vítima de feminicídio, porque sempre eles andaram armados, sempre. Tem uma foto de família com todos os membros da família dele armados eles têm que estudar e saber que se você armar a mulher porque ela é vítima de violência doméstica, o marido, o companheiro, o bandido que não tem o preparo ele vai tomar a arma e vai matar ela”, declarou Barranco à imprensa no dia 30 de abril.
A declaração gerou grande revolta. O liberal interpretou a fala como ofensa à memória da filha e quer que a homenagem seja removida da Casa de Leis. “O motivo é que ela foi desonrada aqui nesse mesmo lugar onde eu estou por um parlamentar que é, inclusive, um dos subprocuradores da Procuradora da Mulher e ninguém se manifestou sobre isso”, disse à imprensa na quarta-feira (13).
Pedido de Max Russi
A tentativa de retirada da homenagem levou o presidente da ALMT, deputado estadual Max Russi (Podemos), a se pronunciar e pedir para que Cattani não fosse adiante. “Eu confesso que eu não quero assinar esse projeto […] o nome da sua filha honra a Procuradoria da Mulher. Ela foi vítima de feminicídio, ela representa aquilo que tem que ser a luta da nossa Procuradoria do enfrentamento à violência contra a mulher”, disse o presidente da Casa de Leis no dia 6 de maio.
Cattani disse que o apelo de Max mostra sua “grandeza” como líder do Parlamento. Ainda assim, ele não retrocedeu e alegou que o pedido de retirada da homenagem é sua única ferramenta de protesto “por usarem o nome da menina depois de morta, que não pode se defender dessa maneira vil e covarde como foi feito”.
O crime
Raquel Cattani, empresária e produtora rural premiada, foi morta com mais de 30 facadas pelo ex-cunhado, Rodrigo Xavier, a mando do ex-marido, Romero Xavier, com quem tinha dois filhos. O crime aconteceu em julho de 2024, em sua residência rural no município de Nova Mutum.
O crime foi inicialmente simulado como um latrocínio, com o roubo de sua moto e celular e a depredação de objetos para despistar a polícia. No entanto, as investigações revelaram que o ex-marido planejou o assassinato por não aceitar o fim do relacionamento, oferecendo R$ 4 mil ao seu irmão para executar o crime.
Em janeiro de 2026, o Tribunal do Júri condenou os irmãos à pena máxima pelo crime de homicídio triplamente qualificado, incluindo as qualificadoras de feminicídio, motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.
Romero Xavier, o mandante, recebeu uma sentença de 30 anos de prisão, enquanto seu irmão Rodrigo foi condenado a 33 anos de reclusão. O caso gerou forte comoção social.


